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| é só ir direto | por Cris Boog
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Estávamos em um pequeno grupo de amigos, passando o final de semana no interior de São Paulo, e, ao sairmos de uma magnífica cachoeira pegamos o carro e resolvemos voltar por um outro caminho... Só que havia algumas bifurcações, algumas sinalizadas outras não... Resolvemos seguir por uma dessas bifurcações e demos em um caminho com uma paisagem deslumbrante: montanhas, bambuzais, pequenos casebres, crianças sentadinhas nas soleiras, nuvens baixas, árvores floridas...Tive a sensação de ter saído do tempo, aquilo era uma outra dimensão. Não tínhamos certeza se aquele caminho ia dar na estrada que nos levaria para casa, mas o visual daquelas montanhas nos fez continuar....é tudo o que três paulistanos estavam precisando. Natureza e simplicidade. Resolvemos então perguntar para alguém o caminho e aí tivemos uma experiência engraçada mas muito bela... Nos deparamos com uma senhora que parecia estar voltando da roça, carregando uma foice, e perguntamos se aquela estrada ia dar em Cunha... Ela nos respondeu de uma maneira muito simples, falando que tínhamos pegado a estrada errada, e que para voltarmos era só "ir direto".... Bom, "ir direto" naquela estrada era uma informação bastante vaga, que não ajudava muito, por causa das várias bifurcações... Então minha amiga que estava no volante perguntou algo como "viro à direita ou esquerda?" e a mulher, com sua cara pura, com seu sorriso de trabalhadora braçal e com seus olhos brilhantes, nos respondeu na maior alegria, e com toda a certeza de que estava nos ajudando: "Quando você chegar no barranco, não faz assim não (fazendo gestos que podiam significar qualquer coisa), vai direto, vai direto..." Bom, agradecemos e continuamos perdidos e felizes, porque a mulher usou da maior boa vontade e simpatia mas nossas dúvidas continuavam.... Qual barranco? O que aqueles gestos queriam dizer?... Em meio a muitas risadas, pegamos outra bifurcação errada e demos de cara com um sujeito andando na rua tentando puxar uma porca que tinha empacado... Detalhe: ele tinha amarrado a porca pelas patas de trás, como uma coleira... Assim que baixamos o vidro para perguntar nossa pergunta-difícil-de-responder, ele falou com o sotaque da região: 'Tarde! Qué chegá em casa? O pai tá lá....' Uma inocência devastadora. Explicar que a gente só queria saber o caminho não foi muito fácil....mas o que ele nos falou foi o mesmo "é só ir direto...." que tínhamos acabado de ouvir..Voltamos então para tentar a outra perna daquela bifurcação quando vemos o mesmo cara descendo o morro correndo atrás da porca que tinha escapado...Cena inacreditável. No final das contas encontramos o caminho porque um outro rapaz nos explicou certinho... Fiquei revivendo aquelas cenas...a mulher com a foice, a porca morro abaixo, o lugar encantado, o bambuzal com suas cores, as paradas para abrir porteiras súbitas no meio da estrada...e as falhas de comunicação que nem chegaram a ser um problema, de tanta ternura que aquelas pessoas nos deram e de tanta energia contida naquela terra... Adorável se perder em um lugar desses, com uma gente dessa, com uma paisagem assim... Perdemos o caminho e achamos a nós mesmos. |