| as mulheres e o afogado |

(interpretação de Rubem Alves de um conto de Gabriel García Marquez, durante o seminário de reflexões sobre a Vida e a Morte)

 

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Era uma vila de pescadores perdida no fim do mundo e naquela vila todos os dias as pessoas faziam sempre as mesmas coisas, de modo que não havia nenhuma novidade e todas as pessoas sabiam de antemão o que as outras iam dizer e por causa da enorme monotonia ninguém mais conseguia se amar.(...)

Até que um dia aconteceu uma coisa estranha, um menino viu uma sombra diferente flutuando no mar e gritou para a vila toda e naquela vila onde nada acontecia, até uma sombra estranha flutuando no mar era motivo de liberdade, de modo que todos correram para a praia e ficaram esperando que o mar pacientemente trouxesse a coisa até a areia e a coisa que o mar colocou na areia era um homem morto afogado.

E na vila, era costume que as mulheres preparassem os mortos para o sepultamento e pegaram o homem que ninguém conhecia e levaram para uma casa, as mulheres do lado de dentro e os homens do lado de fora, e as mulheres começaram vagarosamente a fazer o seu trabalho de limpeza tirando as algas e os limos e as coisas verdes do mar, em grande silêncio, porque elas não conheciam aquele homem e não havia o que falar sobre ele.

Até que de repente, no meio daquele grande silêncio sério, uma mulher disse "é, se ele morasse aqui na aldeia, teria sempre que curvar a cabeça para entrar em nossas casas, porque ele é alto demais." E todas as mulheres sérias, fizeram sim com a cabeça e foi novamente grande o silêncio.

Até que uma outra mulher disse "eu fico imaginando como terá sido a voz desse homem, será que a voz desse homem ecoava forte ou como a brisa, será que esse homem sabia cantar canções ou será que esse homem era daqueles que diziam uma palavra e por causa dessa palavra uma mulher apanha uma flor e a coloca no cabelo?" Todas as mulheres sorriram e fizeram sim com a cabeça.

E foi grande novamente o silêncio até que uma outra mulher olhou para as mãos do homem e disse "eu fico pensando nessas mãos, no que elas fizeram, será que essas mãos travaram batalhas, será que brincaram com crianças, será que remaram através dos mares, será que acariciaram mulheres, será que essas mãos sabiam amar e abraçar?"

E nesse momento, todas as mulheres riram e riram, e aqueles homens do lado de fora perceberam que aquele corpo podia fazer com as suas mulheres o que eles vivos não conseguiam fazer e eles tiveram ciúmes do morto e começaram a pensar nas batalhas que não tinham travado, nas coisas que não tinham dito, nas mulheres que não tinham amado.

E as mulheres começaram a sentir que lá no fundo aves misteriosas começavam a bater asas e começaram a sentir que sentimentos e memórias perdidas surgiram de dentro delas e elas ficaram afogueadas de amor. E, finalmente, enterram o morto, mas a aldeia nunca mais foi a mesma."