![]() |
| a complicada arte de ver | rubem alves
|
| home | artigos | atendimentos | cabala | contato | cursos | currículo | email | florais | links | reiki | textos |
|
Ela
se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante
de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo
Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa
perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o
que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro:
'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca.
Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver". Ver
é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos
dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física
é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto
do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo
na visão que não pertence à física. William
Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é
a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria.
Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça
ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia
perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à
frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para
a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo. Adélia
Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para
uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu
uma pedra. A pedra que ele viu virou poema. Há
muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é
bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta
abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto
Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa
natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a
primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo
concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência
chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não
sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que
escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os
olhos dos meus olhos se abriram". Há
um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos
na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam.
Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se
abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário
em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao
cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao
constatar assombrado que tudo naquela mesa — garrafa, prato, facão
— era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em
construção". A
diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os
olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que
usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais
luminosos, nomes de ruas — e ajustamos a nossa ação. O ver se
subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos
não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos,
eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem,
olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo. Os
olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os
olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos
brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto
Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus
Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente:
"A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras
são engraçadas quando a gente as têm na
mão e olha devagar para elas". Por isso — porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver — eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...
|